Economia da saúde. Isso me interessa?

O setor de saúde enfrenta muitos problemas no país. Ainda assim pode guardar boas oportunidades para o futuro.

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A economia da saúde nasce como um ramo dos estudos aplicados de Economia. Apesar de ser um campo de estudo bastante estruturado em países desenvolvidos, como Inglaterra, EUA e Canada, no Brasil pode-se dizer que está em fase embrionária, com poucos atores e estudos produzidos, mas que vem ganhando força como instrumento nas discussões de políticas de saúde no país.

Contudo a relação entre economia e saúde ainda é bastante conflituosa. Qual o valor da saúde? Qual a viabilidade financeira de uma instituição de saúde? É possível e ético avaliar uma instituição de saúde somente pelos aspectos financeiros? Quanto o Estado e os cidadãos estão dispostos a desembolsar por uma vida? Essas são algumas das perguntas que afastam economistas do tema da saúde e profissionais da saúde das discussões econômicas na sua área de atuação.

Ainda assim não é possível negar que economia e saúde estão ligadas de diferentes formas. Na década de 60 o Estatuto da Aliança para o Desenvolvimento, afirmava que a saúde se constitui como um pré requisito para o desenvolvimento econômico. Entre outros fatores que têm relevância para a economia, encontra-se as condições de saúde de sua população. De maneira simplificada, um indivíduo doente não é capaz de trabalhar, logo não é capaz de gerar riqueza através de seu trabalho; ao passo que um indivíduo que necessita de atenção de serviços de saúde gera, obrigatoriamente, custos que terão de ser pagos por alguém.

Fica claro a importância da gestão dos recursos de saúde e seus impactos na gestão de serviços: qual o nível de oferta? Como está espalhada a oferta de serviços? A que custo? Qual a eficiência e efetividade dos serviços (e aqui não entenda somente números de vidas salvas)?

A existência de tais questionamentos nos fazem entender a saúde não somente como um dos pilares para o desenvolvimento econômico, mas também como uma de suas consequências.

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FOLLAND, S.; GOODMAN, A. C.; STANO, M. A economia da saúde. 5. ed. Porto Alegre: Bookman, 2008. 736p.

Alguns números

Apesar de sua distribuição desigual entre as diferentes classes de consumidores, observa-se uma maior participação dos gastos com saúde no PIB durante as últimas décadas, geralmente relacionada à mudanças na conjuntura socioeconômica do país, como os avanços da urbanização, industrialização, da renda e do emprego formal do país.

Nos Estados Unidos, por exemplo, o gasto com saúde no ano de 2006 representou 16% do PIB, com uma previsão de aumento para 19,6% em 2016, totalizando um valor estimado de US$ 4,1 trilhões. No Brasil, estima-se que os gastos com saúde devam chegar a 10,7% do PIB em 2050, já tendo representado 8,8% do PIB em 2009, sendo responsável por valor adicionado à economia na da casa de R$ 173 bilhões.

Segundo o grupo Contas Satélites, entre 2007 e 2009 os gastos com consumo final de bens e serviços de saúde no Brasil representaram em média, 8.5% do PIB, com as famílias respondendo pela maior parcela dos gastos, porém com o governo apresentando maior crescimento no período.

Os gastos com saúde oneram importante parcela do orçamento familiar, chegando a representar até 80% em algumas regiões do país. Outros estudos apontam como a quarta maior fonte de despesa no orçamento familiar a frente de gastos com educação. Com a implantação do Sistema Único de Saúde (SUS) observou-se, ao contrário do que seria imaginável, uma redução dos gastos públicos em saúde. O que se observou foi uma deterioração dos serviços de saúde, permitindo a ampliação e segmentação do mercado privado de saúde, gerando um crescimento importante dos planos de saúde durante os anos 90.

Os estudos acerca dos gastos com saúde mostram existir relação com a renda familiar, isto é quanto maior a renda maior o gasto absoluto com saúde. Entretanto a maneira como se compõe os gastos diferem entre as diferentes classes de rendas estudadas; enquanto famílias com maior renda comprometem a maior parte de suas despesas com saúde com planos de saúde e similares, famílias de mais baixa renda gastam mais com medicamentos. É importante ressaltar que os gastos possuem maior impacto nas famílias de baixa renda, ainda que em valor absoluto os valores sejam crescentes

O setor privado de saúde atende cerca de 30% da população, que passa a ter, portanto duplo acesso aos serviços de saúde. Este fator pode representar uma alternativa ao congestionamento do serviço público, ainda que este seja por definição universal. Nesse contexto a maior cobertura pelo setor privado, pode diminuir as incertezas acerca do estado de saúde do indivíduo, o que no limite tende a aumentar a produtividade de um país, reduzindo os episódios de afastamento do trabalho, por exemplo.

Enquanto o aumento médio da participação dos gastos com saúde em relação aos gastos totais do governo sofreu em média uma variação positiva de 2.1% a.a., a variação dos gastos privados foi em média de 18,7% a.a., considerando gastos das famílias e das empresas.

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http://www.ccates.org.br/content/cont.php?id=19

Conclusão

Ainda que faltem dados e estudos a respeito da economia da saúde no Brasil, é possível observar que trata-se de um setor em plena expansão, com taxas de crescimento acima do previsto para o PIB nos próximos anos. Alguns fatores podem explicar o porquê disso, mas fiquemos com dois:

  1. É sabido que a população brasileira está envelhecendo. A expectativa de vida tem aumentado consistentemente ao longo dos anos. Além disso, apesar do momento de crise econômica que estamos vivendo, a tendência é que tenhamos uma renda média maior. Em resumo: teremos mais idosos e com relativamente mais poder econômico para dispender com gastos em saúde, em especial em uma idade que naturalmente os cuidados se elevam.
  2. A literatura aponta para um efeito renda com relação aos gastos em saúde, isto é, o indivíduo que vê sua renda melhorar, tende a gastar mais com saúde, em valores absolutos, pois a saúde é uma prioridade. Assim aquele indivíduo que não tinha por exemplo, acesso a um plano de saúde privado (seja pago por ele, seja pago por seu empregador), tende a compra-lo quando dispõe de renda para isso.

Assim, ainda que saibamos dos inúmeros problemas existentes na assistência à saúde no Brasil, é inegável que é um setor que oferece boas oportunidades para o futuro.

E você, está preparado para elas?

Autor: Diego de Freitas Espinoza. Fisioterapeuta pela Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto/USP. Graduando em Administração pela Faculdade de Econômica, Administração e Contabilidade de Ribeirão Preto/ USP

 Referências:

BRASIL. Pesquisa Nacional por Amostra de Domicilios. Rio de Janeiro: Instituto Brasileiro de Geografia e Estatisca – IBGE, 2002.

BRASIL. Pesquisa de Orçamentos Familiares. [s.l.] Instituto Brasileiro de Geografia e Estatisca – IBGE, 2008.

CRISTINA, A. et al. A situação atual do mercado da saúde suplementar no Brasil e apontamentos para o futuro The current situation of the private health plans and insurance market in Brazil and trends for the future. Ciencia & Saúde Coletiva, p. 1421–1430, 2008.

GARCIA, L. P.; CLÁUDIA, A.; ANNA, S. Gastos com saúde das famílias brasileiras residentes em regiões metropolitanas : composição e evolução no período 1995-2009 Healthcare expenses of Brazilian families living in metropolitan areas : composition and trends during the period from 1995 to 2009. Ciência & Saúde Coletiva, p. 115–128, 2013.

IBGE. CONTA SATÉLITE DE SAÚDE. 37. ed. Rio de Janeiro: [s.n.].

NERO, C. DEL; MALIK, A. M. Gastos em saúde : os fatores que agem na demanda e na oferta dos serviços de saúde. Saúde e Sociedade, v. 9, p. 127–150, 2000.

NOY, S. New contexts, different patterns? A comparative analysis of social spending and government health expenditure in Latin America and the OECD. International Journal of Comparative Sociology, v. 52, n. 3, p. 215–244, 26 maio 2011.

POISAL, J. A et al. Health spending projections through 2016: modest changes obscure part D’s impact. Health affairs (Project Hope), v. 26, n. 2, p. w242–53, 2007.

http://www.fsp.usp.br/ecosaude/

http://www.ipea.gov.br/portal/index.php?option=com_content&view=article&id=5329

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